quinta-feira, 14 de agosto de 2014



Ele gostava de observá-la nas noites de Lua cheia. Imaginava que estavam no finzinho de um encontro romântico. Sonhava com o dia em que finalmente se reencontrariam, apesar de saber que as chances dela o notar eram quase inexistentes. Principalmente agora que ela estava ainda mais distante e inacessível.
No inverno anterior muitas coisas haviam acontecido. O mundo deles mudara sem aviso prévio. Foram separados por essa coisa chamada “destino de cada um”. Agora, restara a ele apenas alguns vislumbres dela quando o céu ficava iluminado.
— Ei! Will! — uma voz esganiçada o chamou — Tenho chocolate quente.
William Bolten olhou para baixo e viu Ana pulando com duas canecas da bebida calorosa. Era inacreditável como ela ainda não se queimara ou, no mínimo, deixara os recipientes caírem no gramado.
— É outono ainda Ana. Ninguém bebe chocolate quente no outono — Will respondeu, flutuando suavemente da janela do quarto de Nevada ao chão.
— É sempre inverno quando você está por perto.
Will teve vontade de rir. Ana era a única pessoa da família Montenegro que ainda falava com ele após o revelamento de seu grande segredo. Ela era a sua porta para o mundo de Nevada.
— Quando a Nevada está por perto também... — seu humor mudou repentinamente, e agora ele parecia nostálgico, como se a melhor época de sua vida o tivesse abandonado para sempre.
— Nevada tá uma chata. Até o Henrique acha isso. E olha que ele gosta detodo mundo — Ana revirou os olhos. Ela simplesmente não conseguia entender como um garoto tão bonito podia gostar de sua irmã.
Na verdade, nem o próprio Will sabia. Ele só não conseguia tirar aquela garotade seu pensamento. Ela era seu tormento. Pensava nela e apenas nela. Sua maldita maldição. E não havia cura.
Tudo começara quando ainda eram crianças. Seis ou sete anos. Nada mais que isso. Estavam no fim do inverno. Não nevava mais, mas ainda assim Will sentia uma necessidade enorme de fazer uma guerra de neve. Até tentou pegar a terra e transformá-la numa esfera, contudo não funcionou. Foi então que Nevada apareceu. Envolta num casaco azul ela aproximou-se dele e entregou o que ele mais desejava naquele momento.
Will lembrava-se de ter ficado encantado. Seus olhos arregalaram-se perante a visão maravilhosa e todo aquele desapontamento se fora.
— Como fez isso? — ele perguntou agarrando o objeto que ela segurava.
— Eu imaginei a neve branquinha e gelada na minha mão — Nevada respondeu, como se fosse extremamente simples fazer neve do nada absoluto.
— Eu posso fazer isso também? — Will levantou-se pronto para aprender o melhor dos truques, entretanto algo no rosto de Nevada o desanimou.
— Não sei... — ela franzia os lábios e olhava para todos os lados menos para o garoto a sua frente — Minha irmã nunca conseguiu...
— Ah... — ele sentou na calçada novamente, totalmente desanimado.
— Mas Ana é muito novinha. Talvez tenha algo a ver com a idade e você possa fazer nevar — ele sabia que Nevada estava dizendo aquilo apenas para animá-lo e sentiu- se grato por isso.
Nevada segurou na mão de Will. O garoto já estava animado novamente, apesar de ter consciência da falsidade da própria esperança.
— Pense no frio. Sinta o frio. Imagine a neve. E, depois, acredite que dos seus dedos saem neve e gelo — ela falou bem baixinho, para criar um efeito a mais.
O fato é que nenhum dos dois acreditava realmente que aquela baboseira toda funcionaria. Nevada só queria deixá-lo feliz e Will só queria sentir-se feliz naquele terrível fim de inverno. E então, talvez pela vontade quase palpável dos dois de que aquilo desse certo — porque o desejo e o pensamento são capazes de fazer magia — Will conseguiu criar pequenos flocos na mão de Nevada.
As duas crianças começaram a pular, rir e girar pela calçada que agora acumulava neve. Foram excelentes tempos.
— Pensando nela de novo, não é? — Ana perguntou impaciente — Você deveria parar com isso e aproveitar mais a vida.
— Pensei que você me apoiasse — Will irritou-se.
— E apoio — Ana sentou na grama — Mas não quero que você deixe de ser feliz para ficar sonhando com a Nevada.
— Eu não tenho o Espelho de Ojesed. Estou seguro — Ele sentou ao lado dela rindo sozinho da piada sem graça que fizera com seu personagem favorito no mundo inteiro.
Os dois observaram a noite estrelada enquanto tomavam chocolate quente. Ficaram em silêncio durante muito tempo.
— Talvez você devesse apenas parar de rir da própria desgraça — Ana quebrou o silêncio de repente.
— Como? — Will não fazia ideia do que ela estava falando.
— É. É isso mesmo que você ouviu William Bolten! — Ana apontou o dedo fino para ele com uma expressão exageradamente severa — Você deveria parar de achar graça e ao mesmo tempo se lamentar pelo fato de estar apaixonado por alguém que nunca terá e passar a fazer algo para tê-la.
Will sentiu vontade de rir ao vê-la daquele jeito. Era a mesma expressão de Nevada quando estava furiosa com alguma coisa. Um biquinho nos lábios finos e as sobrancelhas sem cor unidas acima de olhos azuis brilhando de raiva.
— Fazer o quê? Ela finge que não existo — ele deu de ombros, fingindo não se importar com a mais dolorosa realidade.
— Oras! — Ana levantou os braços olhando para o céu estrelado — Então a faça perceber que existe.
— Como se isso fosse fácil — Will resmungou segurando a grama entre os dedos.
Ana acariciou o próprio queixo com a mão. Depois puxou Will pelo braço forçando-o a levantar-se.
— Vem comigo — ordenou carregando-o pelo gramado rumo a sua casa.
Will não concordava com o que ela estava prestes a fazer, entretanto não protestou. Aceitou segui-la porque sabia que era isso o que seu coração desejava mais ardentemente. Por mais irracional que pudesse ser.
Adentraram na grande sala em que ele e Nevada assistiam TV quando eram crianças. O sofá branco e manchado de suco de uva havia sido substituído por um completamente negro. O tapete vinho do centro não possuía mais vestígio das pipocas que recebia quase que diariamente. E o resto da mobília... Bem, o resto da mobília ele não conhecia. Provavelmente a casa fora toda desmontada e remontada nos últimos nove meses.
— Vamos logo — chamou Ana.
Will a seguiu escada acima. Ele subira aqueles degraus tantas vezes que poderia dizer onde ficava cada pequeno risco do mármore daquela escada. Enquanto subia, ia se lembrando da infância. As memórias voltavam automaticamente.
— Está fazendo de novo — Ana falou severamente, pondo as mãos na cintura.
— Fazendo o quê? — ele perguntou de volta, alheio ao ambiente.
— Voltando ao passado. Fingindo que tudo está igual.
Will arqueou as sobrancelhas e seguiu Ana sem protestar. Não vale a pena discutir quando se está errado, ainda mais quando se sabe que está errado.
Ana parou em frente a uma porta branca. Era cheia de figurinhas do Homem de Ferro misturadas as da Aurora, do filme da Disney. Havia também um rasgo na tintura, feito quando os dois brigaram e ela arrancou a grande figurinha do Tony Stark que ele dera a ela. Will pensou que talvez não fosse tão invisível assim, afinal.
— Pode entrar garoto das neves — disse Ana mordendo os lábios, apreensiva, e correndo em direção ao próprio quarto.
Will suspirou. Precisava de coragem para fazer aquilo. Se não fosse naquele momento, não seria nunca. Nunca mais surgiria uma oportunidade como aquela. Bateu três vezes.
— Entre — ouviu Nevada dizer de lá de dentro.
E William entrou.
— Olá Will — ela disse levantando os olhos azuis-da-noite do livro de poesias e sorrindo.
“Deuses, ela é linda”, pensou Will observando-a.
Havia tanto tempo que não a via realmente — sem maquiagem, photoshop, luzes e toda a artificialidade da qual é feita a aparência dos grandes ídolos — que nem lembrava mais de seu verdadeiro rosto. Aquele em que existiam sardas meigas espalhadas pelas bochechas e nariz; pintas charmosas no pescoço incrivelmente branco; uma pequena falha na sobrancelha esquerda oriunda de uma queda do skate aos doze anos de idade.
Definitivamente achava-a mais bonita com aqueles defeitos — eles a tornavam mais real, mais sua. De algum modo.
— Como sabia que era eu?
— Eu tenho um passado, William — ela fechou o livro e olhou profundamente para ele — E me lembro muitíssimo bem dele. Infelizmente.
William puxou a cadeira em frente à penteadeira cor de rosa bebê e sentou-se. Suas bochechas estavam coradas e ele sentiu vergonha do passado pela primeira vez.
— Eu sinto muito...
—... Não foi minha intenção — ela completou a frase, e começou a rir amargamente — Claro que não foi sua intenção. Você nunca quis me magoar, queria apenas o meu bem e queria que eu fosse feliz — ela levantou-se e caminhou até ele — Mas você nunca perguntou se eu estava magoada, se eu estava triste, se eu estava mal. Você apenas fez.
Will ficou sem reação. Era tudo verdade.
Quando Nevada cantou, pela primeira vez, naquele show de talentos famoso a música “Heart Attack”, da Demi Lovato, o mundo foi ao delírio. Estavam todos apaixonados pela garota loira de ferozes olhos azuis e personalidade mordaz.
O reality acabou e Nevada ficou famosa. Toda a vida dela mudou. Sua voz a levara para o topo do mundo. Todo o resto dela fora transformado num modelo a ser seguido. Era o momento dela. Ele não era mais necessário.
Então, William saiu de circulação. Virou mais um horário na agenda corrida dela e, por fim, “O Grande Nada”. William Bolten não existia mais para Nevada Montenegro, a princesinha de gelo da América.
E foi ele quem quis isso. Foi ele quem primeiro se afastou. Porque achava que ela estava cansada dele.
— Você poderia ter falado comigo antes. Não. Você deveria ter falado comigo antes! — Nevada gritou, sem medo de acordar toda a casa, e voltou-se para a varanda.
O quarto de Nevada mergulhou num silêncio incômodo. Os erros do último inverno voltavam à tona como balas de uma metralhadora, acertando tudo pelo caminho. Estilhaçando os restos de sentimento que ficara após a primeira leva de tiros.
— Você ficou com tanto medo de me quebrar que esqueceu que eu já estava quebrada. — ela anunciou ao voltar para o quarto.
Will percebeu que os olhos dela estavam empoçados de lágrimas. Incrivelmente, eles brilhavam agora. A mistura de raiva, tristeza e adrenalina os faziam reluzir.
— E eu, com medo de te ferir com meus cacos, não lembrei que você também já estava estilhaçado — as lágrimas caíram e Nevada não fez menção de limpá-las, ela nunca fazia — Eu não aguento mais isso — sussurrou a última frase e caiu no chão, chorando e segurando a cabeça.
William mordeu o lábio inferior. Nunca sabia o que fazer quando via alguém chorar. Geralmente ficava parado esperando a pessoa se acalmar, como um perfeito idiota. Mas era Nevada quem estava chorando dessa vez, a sua Nevada. Ele precisava fazer alguma coisa.
Então, abaixou-se e acariciou os fios louros platinados, quase brancos.
— NÃO TOQUE EM MIM! — ela berrou ao sentir a mão dele em seu cabelo, e o afastou bruscamente.
Will retraiu-se e sentou na cama dela.
— Por que você insiste em me fazer sofrer, William Bolten? Por que simplesmente não me deixa em paz de uma vez por todas? Por que sempre volta, de um jeito ou de outro, para me assombrar? — Nevada perguntou cobrindo os olhos com as mãos.
Ele engoliu em seco. Nunca imaginara que ela poderia saber de suas espiadelas durante a madrugada, ou das conversas com Ana ou de seu amor platônico. E, pior ainda, ela sabia e se importava. Tanto que chegava a incomodá-la. Isso o levou a um pensamento meio louco e absurdo, daqueles que apenas os desesperados são capazes de ter.
Um achar que ganhou forma rápido demais e, quando percebeu, ele já o havia colocado para fora em forma de palavras faladas:
— Você ainda sente algo por mim?
Nevada engasgou enquanto ria e chorava. Ao se recuperar da tosse e da vermelhidão que atingiu toda a face e pescoço, deitou no chão observando o teto bordado com o céu. As lágrimas ainda escorriam por sua bochecha sardenta.
— Por que acha isso? — ela perguntou sorrindo em meio ao choro para a estrela que a observava de volta.
Era um sorriso moleque, cheio de malícia. O mesmo que ela dava quando queria aprontar algo, ou quando pensava a fundo sobre a vida e suas filosofias. William sempre gostara dele, mas agora sentia medo do riso entre os lábios vermelhos de Nevada.
— Você parece se incomodar demais com os meus sentimentos... — respondeu cauteloso.
Nevada pulou do chão e ficou em pé.
— Ora, e eu não deveria? — ela ajoelhou-se em frente a ele e repousou suas mãos no joelho dele — Você partiu meu coração, William. Não posso ficar feliz em vê-lo a me observar durante a madrugada.
— Então por que nunca me expulsou? Por que nunca me mandou parar? — ele tentou ficar calmo, mas não conseguiu. Seu coração pulsava mais rápido do que jamais pulsara. Ela sabia.
— Pensei que, se não me importasse, se fingisse que você não existia e que não percebia nada disso, você acabaria parando — Nevada levantou e sentou ao lado dele — Me enganei.
Will podia sentir a proximidade da menina. A pele fria e branca dela estava separada dele por alguns míseros milímetros. A proximidade fez o ritmo do miocárdio do garoto acelerar ainda mais. E, como numa explosão, as lembranças do quase-namoro deles veio a tona.
Num desejo súbito de tocá-la, Will esticou a mão esquerda e segurou a mão direita dela. Nevada aceitou o gesto sem reclamar ou afastá-lo. Então, ele se sentiu mais seguro. Quis ousar mais. Um toque apenas não seria suficiente para suprir a falta dela. Precisava, necessitava do corpo dela colado ao seu, como se fossem apenas um.
Sem hesitar, segurou o queixo fino de Nevada entre seus dedos e a frieza daquela pele o deixou ainda mais confiante e confortável. Finalmente os dois rostos estavam frente a frente, fitando-se intensamente. Exatamente como em seus sonhos.
E ao olhar aqueles olhos azuis bem escuros, com aquele brilho único e furioso; aqueles olhos feitos os de Capitu, que te puxam para dentro deles e te prendem ali para todo o sempre; aqueles olhos que possuem uma urgência de adoradores e amantes; aqueles olhos que apenas Nevada possuía, ele percebeu que estava ainda mais apaixonado por ela.
William Bolten só fez mais um gesto. Ele encostou seus lábios aos dela.
Contudo, antes que pudessem realmente se beijar, Nevada o afastou e correu novamente para a varanda.
William a seguiu.
Ela estava apertando a sacada por entre os dedos, com o cabelo voando em todas as direções. Apesar de o vento estar extremamente gelado, ela não parecia sentir frio. Ela nunca sentia frio.
— Por que fez isso? — ela perguntou ao ouvi-lo se aproximar — Por que tentou me beijar?
— Porque eu te amo — William respondeu encostando-se à sacada, bem ao lado dela — Porque eu te amo, Nevada. Te amo como nunca amei ninguém antes.
Nevada riu mais uma de suas risadas amargas e irônicas.
— Não Will, você não me ama. Nunca amou e nuca irá amar. Você simplesmente não pode amar ninguém.
Will ficou chocado com a resposta dela. Quando o amor da sua vida se tornara tão fria assim?
— Nevada, me desculpe, mas sei o que sinto.
— Não, não sabe — ela insistiu — Você pensa que me ama. E sua crença é tão forte que te faz mentir para si mesmo; te faz acreditar que me ama. Mas você não me ama. Isso é tudo fruto da sua imaginação.
— Você está louca. Essa fama toda afetou sua saúde mental. — ele disse revirando os olhos.
Nevada levantou o dedo indicador e posicionou-o por sobre os lábios dele, pedindo silêncio.
— Isso é como a bola de neve de quando éramos crianças. Você quis tanto e acreditou tanto, que acabou se tornando real, que a bola apareceu. Mas com o amor é diferente. Ele nunca apareceu, porque ele não é concreto. Então, você só acha que gosta. E você também quer gostar. E aí você faz seu cérebro acreditar que gosta e mente para si mesmo o tempo inteiro, mas a verdade é que você nunca sentiu nada por mim além de adoração. Adoração de um mero mortal por sua deusa. — ela parou para respirar e, quando continuou, olhou para ele — Você nunca me amou. Você não é capaz de amar. E eu nunca te amei, porque eu também não posso amar.
Will ficou sem saber o que dizer. Tudo o que ela dizia soava tão verdadeiro, mas era tão absurdo e louco que não podia ser verdadeiro. Além do mais, ele sabia o que sentia. Talvez Nevada estivesse apenas estressada ou com raiva dele, e por isso dizia todas aquelas coisas horríveis.
— Nevada, eu sei que as coisas ficaram complicadas entre nós, mas não precisa se ressentir tanto — disse com calma — Eu me arrependo profundamente de ter me afastado de você e de ter quebrado minha promessa. Eu estava com raiva e pensei que você não precisava mais de mim, principalmente depois daquela nossa briga na frente de sua família. Então, fui saindo pelas portas do fundo. Eu não queria te magoar mais.
— Você quebrou meu coração, mas não conseguiu me magoar — ela disse — Nenhum de nós dois pode ser magoado, ou ferido, ou sofrer. Podemos apenas ser quebrados, mais e mais. — Nevada então sentou no parapeito e seus pés ficaram balançando no ar — Será que você nunca percebeu? Nunca descobriu o grande segredo?
Will não fazia ideia do que ela estava falando. Só pôde ficar ouvindo, e esperando que ela terminasse seu discurso louco sobre o que quer que fosse a vida e as filosofias que guiavam seu espírito.
Quando o menino não respondeu, ela soltou uma grande gargalhada. Parecia se divertir com a ignorância dele.
— Como pode ser tão bobinho, Wilzinho? — ela debochou, largando definitivamente o estado ressentido, triste e mórbido para emergir na felicidade e animação. Nevada estava louca.
— Sabe, eu pensei que você fosse mais inteligente. Mas, já que nunca conseguiu perceber a coisa mais óbvia do mundo, vou te explicar tudinho — ela continuou, rindo e se balançado no parapeito — Nós conseguimos fazer neve, benzinho!
Ao dizer isso, esticou bem os braços e inclinou o tronco para trás. William pensou que ela se jogaria dali de cima, entretanto, poucos segundos depois, Nevada já estava em sua posição original e neve caia em cima deles.
— Viu? — ela perguntou, esticando a mão e mostrando a ele um floco de neve maior que o normal.
William não entendia porque ela estava fazendo isso. A cidade inteira sabia dos poderes deles. Todavia, não teve tempo de questionar nada.
— Oh, você ainda não entendeu, não é mesmo queridinho? — a pergunta dela fora feita novamente em um tom de deboche.
— Não. E adoraria que você me explicasse toda essa loucura. — ele respondeu, se esforçando para manter a dignidade.
Aquela menina de cabelos bagunçados que se balança na sacada de uma varanda não era a sua menina. Aquela não era a Nevada que ele conhecia. A Nevada dele não era, nem de perto, louca daquele jeito.
— Tudo bem — Nevada riu e, logo depois, voltou a ficar séria e majestosa, como no momento em que começaram a desastrosa conversa — Nós somos feitos de gelo, William. É por isso que podemos criar a neve. Porque somos feitos dela. Somos completamente frios. Nosso coração é pedra revestida de gelo. Nós não podemos amar ninguém. E nós destruímos aqueles que nos amam. — então ela passou a fitar o infinito, como se ali se encontrasse a resposta para todo o mistério que era sua vida — Nós sempre fomos quebrados. Frágeis feito o gelo fino. E, quando ficamos juntos pela primeira vez, nosso gelo se partiu e nos perfurou. Nós sangramos. Eu sangrei graças a você, e você sangrou graças a mim. Mas nós sangramos e é isso que importa. Sangramos tanto que ficamos destruídos. Nós nos autodestruímos. William, eu sou sua ruína e você a minha. E, só porque não podemos amar, não significa que não possamos nos machucar. Nós não podemos ficar juntos novamente.
William ouviu tudo aquilo estarrecido. Não podia acreditar em nada daquilo que ela estava dizendo, mas reconhecia a verdade naquelas palavras. A triste e sufocante verdade por trás de toda aquela loucura. Eles se autodestruíam quando estavam juntos. Sempre foi assim.
Todas as inúmeras e diárias brigas quando eram apenas amigos. E, quando começaram a se encontrar romanticamente, havia aquela coisa urgente e caótica que os cercava e fazia os dois corações baterem acelerados e os estômagos revirarem, mas que não era paixão, que era medo. O medo que os impulsionava a seguir adiante naquela loucura. Porque sim, no fundo Will sabia que nada daquilo daria certo, mas Nevada sempre parecera tão perfeita para ele que ele decidiu se arriscar. Tudo isso sempre os fazia sofrer e, mesmo que sentissem prazer em sofrer, ainda sofriam.
Não, não os fazia sofrer. Nevada dissera que eles não podiam sofrer. Dissera que eles apenas podiam ser quebrados. E foi exatamente isso. Eles não sofreram. Eles se quebraram mutuamente. E gostaram de se quebrar. O problema é que, depois de um tempo, não existe mais nada para ser quebrado e você vira um monte de cacos.
Por sorte, pararam antes que apenas cacos restassem deles.
— Sabe, eu não te amo nenhum pouquinho e nem nunca te amei — Nevada disse, segurando a gola da camisa dele e puxando-o mais para perto — Mas eu definitivamente não quero que você vire um nada. Ou “O Grande Nada” que você acha que se tornou. Você ainda é alguma coisa muito boa e quero que continue assim.
Nevada puxou William mais para perto e o beijou. Foi um beijo frio e caloroso ao mesmo tempo. E a neve caiu ainda mais forte sobre eles e Will pensou que, talvez, houvesse esperança para a história de amor deles — por mais que soubesse que era uma tolice achar que ficariam juntos algum dia, não conseguia evitar.
Então, quando eles se separaram, Nevada se jogou para trás. Jogou-se para o chão que se estendia abaixo da varanda do quarto dela. Um chão que estava três metros abaixo da varanda do quarto dela. Quando eles se separaram, Will pôde ver Nevada cair graciosamente para o infinito. Sem poder fazer nada.
Naquele momento William Bolten percebeu que Nevada havia sim sido quebrada até o fim.

Link original: http://fanfiction.com.br/historia/514336/Feitos_de_Gelo/

Existe um ditado que diz que “de perto ninguém é normal”.  Ele é confirmado pelas manias que todos possuímos e pelas características inerentes a cada um que são completamente estranhas ao outro. Mas, o ditado só é verdadeiro porque, no universo, tudo é diferente. As pessoas não são iguais. Cada uma delas é um mundo totalmente original inserido num padrão comum a todos.
O padrão é o Grande Criador de conceitos pré-estabelecidos que possibilitam a existência de preconceitos e do machismo. É ele quem dita o que devemos ser; como devemos agir e o que é politicamente correto. A parte conservadora da sociedade faz dele um deus, cujos mandamentos guiam toda a sua existência.
Quando um indivíduo quebra este padrão, ele é julgado. O diferente é censurado e incompreendido. Não importa que todos nós tenhamos algum tipo de particularidade. Sempre existe um estranhamento e até mesmo uma recusa em aceitar aquele que se admite desigual.
Na crônica “O Nariz”, de Luís Fernando Veríssimo, toda essa estranheza é retratada. A recusa e o preconceito são abordados quando todos acreditam que o dentista está louco porque decidiu usar um nariz postiço e alguns, inclusive, o abandonam por conta disso.
As pessoas ao redor desse dentista não perceberam, em momento nenhum, que ao vestir aquele nariz novo ele estava sendo apenas ele. É como o escritor norte-americano John Green disse em Cidades de Papel: “Ou nós os idealizamos como deuses ou os dispensamos como animais.”. De fato, quando o outro ser humano não age de acordo com o deus que imaginamos que ele era, nós o recriminamos.
Ao fim da crônica, o dentista questiona: “Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?”. A resposta é afirmativa. Sim, para a maior parte da sociedade, conservadora e arcaica, ele se tornou o nariz. Sim, a polêmica foi gerada pelo uso do nariz postiço. Sim, ele sofreu preconceito por conta de um nariz. Contudo, o nariz não era ele. Apenas refletia uma característica excêntrica dele. Uma característica que até então não fora notada porque as pessoas o idealizavam como um deus.
Acontece que ninguém é um deus. Todos somos humanos, cheios de rachaduras e problemas. Cada um com seus fios soltos e conexões julgadas erradas. E, todos os dias, somos analisados. Conclusões precipitadas são tiradas de nós por conta de algo “esquisito” em nossa personalidade. Isso é uma marca da mania que a sociedade tem de criar padrões de comportamento, de beleza, de estilo, disso e daquilo... Mas é também o conservadorismo não abrindo as portas para o novo.
A solução do problema do dentista é simples: deixar de se importar. Não é saudável procurar agradar a todos, não é inteligente ser uma “ideia de pessoa”. Você nunca será aquela imagem que criou de si.

É muito mais importante ser feliz.
sábado, 10 de maio de 2014



Quando Andy Dufresne (Tim Robbins) é condenado a duas prisões perpétuas por crimes que não cometeu, ele é mandado para o presídio de Shawshank. Lá, é iniciado em um mundo completamente desconhecido e se vê obrigado a adaptar-se para sobreviver.
Considerado o filme mais injustiçado da história, por perder o Oscar para Forrest Gump, Um Sonho de Liberdade arranca lágrimas de quem o assiste. Sensível e emocionante, ele explora as facetas da natureza humana com tamanha autenticidade que leva muitos dos telespectadores a questionarem profundamente antigos conceitos.
O arquétipo do homem honesto e religioso é quebrado pelo agente penitenciário Warden Norton (Bob Gunton). Corrupto e cruel, o diretor do presídio usa a Bíblia como meio de opressão e controle dos presos. As ações do personagem juntamente a suas pregações provam o quanto a sociedade pode ser hipócrita. Afinal, quem cogitaria a possibilidade de alguém tão crente como Norton ter atitudes tão vis?
Por outro lado, os presos são colocados no lugar de mocinhos. A imprudência que os levara a Shawshank é redimida pela capacidade que eles possuem de instigar empatia. Seus sonhos e esperanças os humanizam. É o caso do jovem Tommy, assassinado por possuir a chave para a liberdade de Andy.


Além desta inversão de papéis, algo que chama a atenção é a relação de Brooks com a liberdade. Um dos personagens mais marcantes, ele passou grande parte de sua vida no presídio. Ao receber o privilégio da liberdade condicional, o velho Brooks se sente perdido. Shawshank havia se tornado o seu lar. Era o lugar onde estavam todos aqueles que ele amava. Uma metáfora sutil e cheia de lições.
Mas o grande ensinamento da obra é a esperança. Ela é a coisa boa que nunca morre a qual Andy faz referência em uma conversa com seu amigo Redding (Morgan Freeman), o Red — conhecido por contrabandear objetos para dentro de Shawshank. E é a esperança de algum dia sair do presídio que faz com que Andy aguente ficar tanto tempo preso injustamente.

Talvez seja estranho sonhar dentro de um lugar cercado por pedras e grades. Todavia, Andy prova que nenhum desejo que venha do coração pode ser considerado esquisito. 



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


O moletom azul esquenta minha pele em dias de garoa ventosa. No entanto, ele não consegue suprir as necessidades de calor do meu interior. O mesmo chocolate quente que aquece um estômago dilacerado pela Coca-Cola, não preenche a solidão. Estou marcada pelas desventuras de Narciso. Agora sou olhos antissociais à deriva.

Seria esta uma esplendorosa forma de me alertar? Alertar para o quê? Quiçá eu não seja uma condutora de marionetes. Tão pouco tenha alvará para ser roteirista. Sou apenas uma atriz em decadência. Possuo, unicamente, cigarros que me consolam. Os cigarros e as suas cinzas.

Cigarros que em findos tempos foram fumaça. Esbranquiçada. Lampejo de luz que me levou até você. Ardente paixão me conduzindo ao torpor. Inefável desejo carnal. Doçura e amor. Acreditei ser uma primeira. Destino indizível! Conduziu-me ao índigo e, lá, o Sol apagou. Oh! Que negror! Negror... Negror...

A culpada sou eu. Sei. Sim. Joguei carvão no orvalho. O mundo enegreceu. Maldito pecado! Dilacerei-o. Mutilei-me. Pedras estão palpitando. Efeitos das lágrimas, minhas e tuas, que congelaram no olhar. Arrependimento paira sobre mim. Sufoca na agonia. Choro.

Há o perdão? Não sei. Você preferiu iludir-se. Levou-me junto. Oh, crença estúpida! Somos preto ou branco, não existe o meio. E numa indecisão, marcada por paradoxos meus, descobrimos outra via.

Chegada é a vingança. Viramos um ex-casal apaixonado. Presos no brio; estamos resolutos. Disputa acirrada, regras nebulosas. Teu inimigo. Minha amiga. Todos são instrumentos. Humanos são meios. Tornamo-nos vis.

Sem sentido. O caos. Bocas secas e pulsos rápidos em casuais encontros. Minha garganta arde com a sede de Algo. Observação mútua. O seu orgulho. A minha teimosia. Círculo vicioso. Saudade. Certeza do final. Consumição. Depressão.


O moletom azul esquenta minha pele em dias de garoa ventosa. Agora sou olhos antissociais à deriva.
domingo, 28 de julho de 2013





A nobreza, em toda a jornada do homem pelo planeta, desde os primórdios às sociedades complexas da atualidade, sempre foi um ato indiscutivelmente prezado por todos. O homem nobre, irrefutavelmente considerado corajoso deveria admitir como responsabilidade máxima a busca pela nobreza plena, procurando assumir seus erros, medos, defeitos... Tal atitude demonstra a capacidade de ser gentil com o próximo, posto que acarreta uma ação de respeito ao outro.
Num contexto de sociedade, onde todos os seres estão interligados, uma prática leva a outra, formando uma cadeia ou um ciclo. Em suma, uma gentileza desencadeia uma série de outras gentilezas.
Entretanto, em um mundo egoísta e individualista, este ciclo é quebrado momentos depois que surge. Ninguém precisa de ninguém. O homem se alimenta dos lucros que pode obter com o sistema capitalista, consome irrefreavelmente, põe em risco a si e a terceiros na busca de prazer, e em nenhum momento se digna a prestar atenção nos clamores da natureza e de seus irmãos.
A única esperança para essa sociedade doente é a educação. A educação que verdadeiramente conscientiza e ensina as crianças e adolescentes a enfrentarem os problemas da vida com amor, respeito, dignidade, humildade e honestidade.
A prática de tais atitudes deve ser ensinada pela família em comunhão com a escola, porque quando os jovens são estimulados a serem gentis, eles conseguem ressuscitar um ciclo, lapidando-o para que se torne infinito, gerando cada vez mais gentileza.



CURTAM:            https://www.facebook.com/GSSvemquetem?fref=ts
sábado, 22 de junho de 2013
        Algumas das coisas que vejo nos facebooks e twitters da vida me irrita muito. A gente curte, dá RT e ri na hora por ser engraçado, porém, ao parar para refletir, percebi que algumas coisas vão além da esfera "só pra descontrair". Não estou afirmando que quem postou isso ou aquilo teve alguma intenção além de provocar gargalhada (afinal, alguns dos perfis eram de comediantes), mas acho que deveríamos analisar algumas coisas antes de levá-las ao pé da letra.
       Uma das publicações que mais tenho visto é famosa "Imagina minha vergonha quando, daqui a 30 anos, meus filhos me perguntarem se eu fui à Revolução dos R$00,20 e eu responder que não, porque minha mãe não deixou". Minha realidade, é verdade, entretanto eu me pergunto (levando a postagem mais é sério, é claro), estamos indo aos protestos para termos orgulho de dizer que lutamos pelos nossos direitos, ou simplesmente porque será bonito, daqui a alguns, se o Brasil estiver melhor (não me levem a mal, mas não acredito que todas essas manifestações possam fazer com o Brasil sofra uma mudança efetiva e duradoura). dizer que participamos deste movimento? 
        Outra postagem que vi esses dias no perfil de um amigo dizia mais ou menos isso: Acham que compartilhando coisas dos protestos fazem alguma coisa. Ajudariam muito mais se realmente FOSSEM aos protesto #vemprarua.  Claro que ele disse isso nas melhores das intenções, e claro que existe muita gente que acredita estar ajudando ao postar algo do gênero, mas... E quem não pode fazer nada exceto divulgar o movimento? E quem os pais não deixaram ir se manifestar, fosse por medo da polícia ou dos vândalos?
        Acho que as pessoas deveriam parar de generalizar e pensar um pouco nas exceções. Elas podem se irritar. Eu já estou me irritando.


P.S.: Não levem muito a sério o que escrevi, foi só uma forma de extravasar minha irritação com posts desse tipo. Mas, como é de praxe, vou postar algumas linhas sobre o que eu senti quando minha mãe não permitiu que eu fosse protestar. 
"As crianças derrubaram o rei, entretanto cresceram e quiçá pela seriedade do mundo adulto, transformaram-se no monstro corrupto que combateram. Hoje, novas crianças existem, são os netos da revolução, sem medo de mudar a nação. Juraram não se esconder, porém papai e mamãe fogem dos erros que foram acusados de cometer, e a geração virtual é trancafiada atrás de muros da alienação. Contribuem para a proliferação do estado hediondo em que vivem."
 
        
sexta-feira, 21 de junho de 2013




Lágrimas empoçam os olhos e escorrem rumo ao pescoço no mesmo ritmo do tilintar da fina chuva na janela de blindex. Os ponteiros do relógio se arrastam numa lentidão insuportável, sufocando-o na mesma bolha de alienação que revestira a pátria amada durante quinhentos anos. Zombavam dele com seu tic-tac irritante. A cada demorado segundo, percebe que a própria inércia permanece grudada em seu corpo dando toques de impotência ao já refestelado cidadão sem esperança. Afinal, nasceu errante e assim seguiu, num movimento retilíneo e uniforme, sem que qualquer asteroide interplanetário se dispusesse a tirá-lo da órbita comum.
A torneira dos banheiros pinga com a pia fechada transbordando água nos cômodos lotados e estultos. Um “inotável” desastrado terremoto derrama chocolate quente adoçado artificialmente por ladrões inescrupulosos e os faz perceber a podridão abaixo de seus pés. Tentam fugir do ambiente sórdido. Atropelam-se numa incendiária corrida rumo à liberdade inexistente nessa ditadura disfarçada de democracia. O vírus da Revolução alastra-se por todo o território. Revoltaram-se todos.

Na tentativa falha de invadir o covil dos sugadores sem limites, deixaram o aviso: o Gigante acordou. Pararam assim o país, posto que não desejavam chuteiras, gritavam por saúde e educação. Foi a aclamação dos tais que explodiu o fogo patriota no coração da nação: ou param a corrupção, ou paramos o Brasil!
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